
AUTA DE SOUZA
Auta de Souza nasceu no Estado do Rio Grande do Norte, na pequena
cidade de Macaíba, em 12 de setembro de 1876. Quarto filho
do casal Eloi Castriciano de Souza e Henriqueta Leopoldina Rodrigues
de Souza, Auta teve como irmãos mais velhos Henrique Castriciano,
Irineu, e o Júnior, e, como caçula, o João
Câncio. Desde a infância Auta estudou, segundo Clovis
Tavares, "As grandes lições do sofrimento humano".
Sua mãe desencarnou antes que a "cotovia mística
das rimas" completasse três anos de idade; o pai seguiu
a companheira em 1881, quando Auta tinha, portanto, cinco anos.
Os avós maternos de Auta recolhe-a e aos irmãozinhos,
levando-os para Recife [...] Aos sete anos já sabia ler
e escrever, graças a um professor amigo e aos oito anos
de idade lia para as crianças pobres, para humildes mulheres
do povo ou velhos escravos as páginas simples e ingênuas
da História de Carlos Magno...
Na inesquecível noite de 15 de fevereiro de 1887 - Auta
tinha dez anos - outra tragédia vem trazer nova e dura
provação à mais espiritual das poetisas brasileiras:
o mano Irineu, o companheiro de todas as horas, é envolvido
pelas chamas de uma lamparina de querosene, que explodiu. O menino
resistiu ainda dezoito horas, mas foi finalmente juntar-se aos
pais, no além. Essa sucessão de golpes dolorosos
marcou profundamente sua alma sensível de mulher, caracterizada
por uma pureza cristalina, uma fé ardente um profundo sentimento
de compaixão pelos humildes[...] Aos doze anos inicia seus
estudos oficiais, no Colégio São Vicente de Paulo.
Aí aprende o idioma francês, o que lhe permite ler
os mestres da literatura francesa no original. Durante dois anos
estuda, recita, verseja, ajuda as irmãs do Colégio,
e, principalmente, aprimora sua fé, na leitura constante
do Evangelho.
Aos 14 anos inicia "novos e doridos passos do seu calvário".
É a tuberculose que começa a ação
devastadora. Desesperançada pelos médicos de Recife,
vovó Dindinha retorna com os netos para Macaíba.
A grandeza de espírito de Auta mais uma vez se revela:
mesmo molestada pela doença implacável, Auta escreve
e ensina às crianças as primeiras noções
de religião. A enfermidade, todavia, não detém
a sua marcha. Torna-se necessário para D. Dindinha peregrinar
pelo interior, à procura de clima seco: Angicos, Nova Cruz,
Utinga, São Gonçalo, Serra da Raiz, etc., são
visitadas. Mas a doença avança, mais e mais... Porém,
laureando-se na escola da dor, fez-se intérprete fiel das
emoções de todos os que sofrem resignadamente. Por
esse motivo, sua poesia recebeu a consagração do
carinho popular. Foi na alma do povo que seus versos encontraram
a mais profunda repercurção. Francisco Palma, num
soneto, define-a como "A COTOVIA MÍSTICA DAS RIMAS".
Em 07 de fevereiro de 1901, aos 24 anos de idade, Auta de Souza
desencarna em Natal, capital do Rio Grande do Norte. Escreveu
um único volume de poemas, "HORTO", publicado
em 1900, pouco antes de sua morte, com prefácio de Olavo
Bilac. A primeira edição esgotou-se em dois meses,
ocorrendo fato análogo com a segunda edição,
em 1911. Até o presente, quatro edições de
"HORTO" vieram a público - a terceira prefaciada
por Alceu Amoroso Lima, em 1936, e a última, em 1970. Sua
produção poética, antes de se chamar "Horto",
tinha o nome de "Dálias". Todo o livro está
impregnado do sentimento cristão que sempre a inspirou.
A mesma simplicidade, a mesma fé, a mesma ternura que
emanam dos versos escritos em Espírito, pelas mãos
de Francisco Cândido Xavier, podem ser identificados nos
poemas da autora encarnada. Entre a larva da jovem enferma e a
alma liberta, uma só diferença profundamente confortadora
para quantos buscam o confronto sem a exclusiva preocupação
de identificação do estilo - na existência
física atormentada, é a AVE CATIVA que canta seu
anseio de liberdade, o coração resignado que busca
no Cristo o consolo das bem-aventuranças prometidas aos
aflitos da Terra; além do túmulo, é o pássaro
liberto e feliz que, tornando ao ninho dos antigos infortúnios,
vem trazer aos homens a mensagem de bondade e esperança,
o apelo à FÉ e à CARIDADE, indicando o rumo
certo para conquista da verdadeira vida.
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