
JOANA D´ARC
A Lendária e Histórica Pucelle
Conforme já disse o célebre escritor, conterrâneo
de Joana d’Arc, Léon Denis: "a história
de Joana é inesgotável mina de ensinamentos, cuja
extensão total ainda se não mediu e da qual se não
tirou ainda todo o partido desejável para a elevação
das inteligências, para a penetração das leis
superiores da Alma e do Universo" (Joana d’Arc Médium,
FEB 19ª edição, pág. 18).
Trata-se de uma inestimável personagem histórica,
absolutamente sem precedentes, que tem merecido a atenção
de várias gerações de estudiosos até
hoje. Cronistas, poetas, romancistas e historiadores têm
fornecido imagens diferentes sobre esta personagem. De feiticeira
à santa, quase tudo já se disse sobre Joana. Entretanto,
nenhuma crítica, nenhuma controvérsia logrará
manchar a auréola de sublime pureza que a envolve.
No tocante ao rol de filmes sobre a Virgem de Lorena, gostaríamos
de enaltecer o trabalho cinematográfico francês intitulado
"Joana d’Arc", com participação
da grande Jacqueline Bisset, pois esta obra pareceu-nos muito
fiel à biografia admitida pela grande maioria dos historiadores.
Já o último filme sobre Joana d'Arc, com Milla Jovovich,
é uma grande difamação, ridícula,
pois trata nossa heroína à guisa de louca e interesseira,
com alucinações e delírios frutos de uma
demência. Este filme hollywoodiano é, portanto, uma
grande afronta ao bom senso das pessoas, subestimando a inteligência
do público e ignorando os fatos comprovadamente históricos
acerca de nossa personagem.
Aliás, diga-se de passagem, baseamos esta biografia na
obra dos historiadores Jônatas Batista Neto e José
Batista. Os diálogos que incluímos neste trabalho
estão baseados no relatos dos processos de condenação
e de reabilitação da Pucelle.
A verdade é que a vida de Joana d’Arc, sem sombra
de dúvida, é uma das manifestações
mais brilhantes da Providência Divina na História
da Humanidade. Sua vida resplandece como celeste raio de luz,
na temerosa noite da Idade Média.
E não é só isso! Para nós, espíritas,
é de suma importância dar a devida importância
à famosa libertadora da França, o país que
quatro séculos mais tarde tornar-se-ia berço da
Doutrina Espírita, codificada por Allan Kardec.
Hoje, este sublime anjo de Deus, executa em esfera mais alta,
no plano espiritual e moral, trabalho de preparação
e auxílio nesta revolução pacífica
e regeneradora, que arrancará as sociedades humanas dos
caminhos trevosos e dirigirá o olhar do homem para os destinos
esplêndidos que o esperam, concitando a Humanidade a acelerar
a marcha rumo a uma Nova Era.
Mas vejamos como tudo isso se deu!
A Época de Joana
Joana d’Arc viveu em um dos períodos mais sombrios
da história da França, numa fase já avançada
da chamada Guerra dos Cem Anos (1337-1453) entre a França
e a Inglaterra, que teve como causa principal a pretensão
dos reis ingleses de assumirem a coroa francesa, visto que o rei
francês Carlos IV morrera em 1328 sem deixar herdeiro para
o trono e sua irmã Isabel desposara Eduardo II da Inglaterra.
Este casal possuía um filho, Eduardo III, que, ao completar
18 anos de idade, passou a reivindicar seus direitos, causando
vários atritos entre os dois países, culminando
com a guerra aberta em 1337.
Mas Deus não deixa a humanidade abandonada a si mesma,
principalmente nas horas de crise e de provação.
É quando Ele intervém através de Seus mensageiros
providenciais, impedindo o triunfo do mal.
Destarte, foi em 1412, numa bonita e singela casa de pedra, que
nasceu Joana, filha de Isabel Romée e Jacques d’Arc,
pobre camponês da aldeia de Domrémy, em Lorena. Na
época em que a peste negra e a guerra civil dizimavam milhares
de vidas, eis que surge Joana d’Arc, como um raio de luz,
vindo do alto, em meio dessa noite de luto e de miséria,
para salvar da morte todo o reino da França.
Em 1420, o rei louco Carlos VI, em sua demência, assinou
o Tratado de Troyes, claramente desfavorável à França,
deserdando seu filho Carlos VII, conhecido como "o delfim",
devendo a coroa francesa passar para o inglês Henrique V,
que se casara com Catarina, filha do rei da França.
Quando Joana d’Arc aparece no cenário da História,
o duque de Borgonha já reconhecia Henrique V como rei da
França. Paris estava nas mãos dos ingleses. O delfim
Carlos, então, vira-se obrigado a refugiar-se em Bourges,
juntamente com os demais franceses rebeldes à dominação
inglesa, entregando-se ao desânimo e à inércia.
A França estava perdida, ferida no coração.
Orleáns, cuja ocupação entregaria aos estrangeiros
o coração do país, ainda resistia, mas por
quanto tempo?
A Missão da Pucelle
Embora desfrutasse de uma infância normal, brincando com
as outras crianças, auxiliando sua mãe a fiar lã
e seu pai nos cuidados com o gado, Joana não deixava de
observar as dificuldades por que a sua aldeia passava, tendo até
mesmo que fugir, para se proteger em fortalezas, quando um ataque
inimigo ameaçava a região.
Extremamente religiosa, Joana freqüentava a igreja e acompanhava
todas as procissões que percorriam a aldeia e os campos
culminando na leitura do Evangelho. Não sabia ler nem escrever.
Era uma boa e meiga criança, amada por todos, especialmente
pelos pobres e infelizes, os quais nunca deixava de socorrer e
consolar. Cedia boamente a cama a qualquer peregrino fatigado
e então passava a noite sobre um feixe de palha. Trata-se,
realmente, de uma dessas almas puras e profundas que descem à
Terra para desempenhar elevada missão.
A sua primeira visão ocorreu no ano de 1425, num dia quente
de verão, ao meio-dia. Uma voz, acompanhada de muita luz
e vinda da direção da Igreja, tomou-a de surpresa,
incutindo grande medo. Assustada, Joana ouviu-a por três
vezes e então teve a certeza que era a voz de um anjo,
que ela mais tarde reconheceu como São Miguel, a dizer-lhe
para ser sempre boa, continuar indo à igreja e confiar
no Senhor. A visão marcou profundamente o espírito
ainda infantil de Joana, que não hesitou em fazer voto
de castidade.
Pouco a pouco, seus colóquios com os Espíritos
se tornavam mais freqüentes e, certa feita, o arcanjo São
Miguel, Santa Catarina e Santa Margarida falam da situação
do país e lhe revelam sua missão: "É
preciso que vás em socorro do delfim, para que, por teu
intermédio, ele recobre o seu reino." A princípio
Joana se escusa, afinal, era uma simples menina e não sabia
nada de guerras ou montaria. Mas as Santas Catarina e Margarida
repetiam-lhe sem cessar: "Vai, vai, nós te ajudaremos!".
Destarte, a menina Joana precisava partir, instruída pelas
vozes angelicais. Seu destino era seguir para Chinon, ao encontro
do delfim Carlos VII e convencê-lo de que Deus confiou a
ela a missão audaz de reorganizar e comandar o exército
francês, expulsar as tropas inglesas e pôr fim ao
cerco de Orléans, além de sagrá-lo rei, restituindo
à França a sua sonhada liberdade.
Começa a Missão
Ainda com 16 anos, em Maio de 1428, Joana recorre ao seu primo
Durant Laxard, a quem respeitosamente chamava de tio devido à
diferença de idade, único parente que acreditava
em sua predestinação. Então ela viaja para
Burey-le-Petit para assistir sua prima, a esposa de Durant, que
estava grávida. Depois de uma semana, seu tio a leva para
Vaucouleurs, onde ela reconhece, pelo concurso de suas vozes,
o capitão Roberto de Baudricourt, a quem ela contou sua
missão, pedindo auxílio para chegar até o
delfim. Mas o comandante de Vaucouleurs não lhe dá
ouvidos e Joana retorna à Domrémy.
No mesmo ano, o exército dos ingleses e borgonheses (seus
aliados) atacaram a região e nesta investida alcançaram
Domrémy, obrigando o povo da aldeia a refugiar-se em Neufchâteau,
mais ao sul. A devastação deu a Joana mais motivos
para voltar a Vaucouleurs em Janeiro de 1429.
A Donzela, então, arruma sua ligeira bagagem - um embrulhozinho
e o bastão de viagem - ajoelha-se ao pé do leito
onde repousam seus pais e, em silêncio, murmura aos prantos
o seu adeus. Não faltará a sua missão, pois
a França aguarda. Aos 17 anos ela, pura como o lírio
sem mácula, partiu para cumprir sua missão e Domrémy
nunca mais tornou a vê-la.
Chegando pela segunda vez em Vaucouleurs, novamente em companhia
de seu tio Durant, viu seu pedido novamente recusado pelo rude
capitão Braudicourt. Entretanto, nada é capaz de
desviá-la de seu objetivo e ela passou a insistir demasiadamente,
parando seus apelos apenas para rezar na capela do castelo e assistir
à missa. Apoiada pelo povo, que recordava uma antiga profecia
segundo a qual a restauração da França seria
conseguida graças à uma virgem oriunda de Lorena,
Joana conquistava a simpatia da cidade. Se preciso fosse, ela
caminharia até não ter mais pernas, para cumprir
o seu intento. Foi quando recebeu trajes masculinos e um cavalo,
tal como queria. Impressionado com sua convicção,
um cavaleiro chamado Jean de Metz, prometeu conduzir-lhe até
o delfim. Finalmente, Braudicourt, o comandante de Vaucouleurs,
cedeu-lhe uma pequena escolta para que pudesse encetar a viagem
até os domínios do monarca.
Após onze dias de uma viagem cheia de obstáculos,
cruzando províncias dominadas pelos inimigos, evitando
a maior parte das cidades, parando em Auxerre apenas para que
pudessem rezar na catedral, venceram os 500 quilômetros
que os separavam do castelo de Chinon em perfeita segurança.
Chegaram à aldeia de Santa Catarina-de-Fierbois, distante
35 quilômetros de Chinon, no final de Fevereiro, onde os
rumores acerca da missão da Pucelle já se faziam
presentes. Da aldeia, Joana enviou mensageiros ao delfim, solicitando-lhe
uma entrevista. Durante dois dias, ela aguardou a resposta orando
e assistindo à missa na capela da aldeia, quando enfim
recebeu o convite para ir à coorte.
A Donzela e a Coorte
Com o intuito de experimentar a emissária de Deus, Carlos
VII pusera no trono um cortesão e ocultara-se na multidão
de fidalgos. Joana entrou no imenso salão do castelo, onde
se achavam reunidas trezentas pessoas e, instruída pelas
suas vozes, reconheceu o delfim com facilidade, foi direto a ele
e ajoelhou-se, saudando-o com humildade, para surpresa geral de
todos os presentes.
Pouco depois, palestrando longamente em particular com o já
impressionado delfim, ela ainda deu-lhe outra prova: a Donzela
revelou-lhe suas próprias hesitações e pensamentos
que ele guardava em segredo e dissipou-lhe dúvidas que
nutria sobre seu próprio nascimento, reconhecendo-o como
legítimo herdeiro do trono da França e, como tal,
seria conduzido a Reims para a devida sagração,
devendo, em nome disso, fornecer um exército à Pucelle
para cumprimento da primeira etapa de sua missão, a libertação
de Orléans.
Carlos VII, então, disse ao conselho e aos presentes que
a Virgem de Lorena havia-lhe feito revelações admiráveis
e dado um sinal divino, depositando por isso, grande confiança
nela. Contudo, o conselho da coorte ainda deliberou enviar Joana
a Poitiers para submetê-la a um rigoroso exame. Diante da
comissão de inquérito, a cada momento rompem seus
lábios ditos chistosos, tão imprevistos quanto originais,
arrasando as lastimosas objeções de seus examinadores.
Foi ainda submetida, mais de uma vez, a um conselho de matronas
que lhe constaram a virgindade.
Como vemos, os agentes da coroa francesa se mostraram tão
ingratos e indiferentes para com a Pucelle tanto no início
quanto no decorrer de sua missão. Nesta pobre criança
não se encontrou maldade alguma e sim tudo quanto é
bom, humildade, virgindade, devoção, honestidade
e simplicidade.
Joana saiu triunfante de todas essas provações
e garantiu que os ingleses seriam vencidos, o delfim seria sagrado
rei, Paris retornaria à obediência da França
e o duque de Orléans regressaria de seu cativeiro na Inglaterra.
Essas quatro profecias da Pucelle se realizaram, embora duas após
a sua morte. Esse inquérito foi registrado no "Livro
de Poitiers", onde as comissões deram fé que
Joana era virgem, boa cristã e uma verdadeira católica.
As Batalhas
Após a exaustiva investigação, o delfim
e o conselho decidiram que Joana d’Arc deveria receber auxílio
para as operações militares e ostentaria o título
de chefe da guerra. Ela então seguiu para Tours, onde mandou
fazer a sua armadura e as suas insígnias: um estandarte
de guerra, uma flâmula de batalha e um estandarte religioso,
este último um pouco menor que o primeiro e possuía
uma bandeira branca com franjas de seda, uma imagem de Deus abençoando
as flores de lis e a divisa "Jhésus Maria".
Antes de partir para Blois, ela ainda enviou um armeiro para
Santa Catarina-de-Fierbois em busca da espada do histórico
Carlos Martel, com cinco cruzes gravadas no topo, que estava enterrada
atrás do altar da igreja. Incrível é que
ninguém sabia que a espada ali se encontrava. A Donzela
também cortou seus longos cabelos, que na verdade eram
negros, embora muitos pintores o retratem loiros.
Em Blois, Joana e seu pequeno grupo juntaram-se aos grandes chefes
militares franceses Raul de Gaucourt, Regnault de Chartres, Poton
de Xaintrailles, Gilles de Rais e Estêvão Vignolles
(conhecido por La Hire), reunindo um exército de aproximadamente
quatro mil homens.
Então, a 27 de Abril de 1429, o exército partiu
com víveres para Orléans, ponto estratégico
do Vale do Loire, que já estava cercada pelos ingleses
desde o ano anterior. Em Orléans a defesa estava entregue
a João Dunois, um dos maiores capitães franceses
do final da Guerra dos Cem Anos.
Joana sempre preocupou-se muito com a situação
dos pobres franceses das cidades sitiadas pelos ingleses e seus
aliados. A população se espremia nas ruas para vê-la.
Envergando a armadura toda branca, empunhando a bandeira e trazendo
à cinta a espada de Fierbois, a Pucelle avançava
radiante de esperança e de fé. Se os cortesãos
a olham com suspeita e desdém, o povo ao menos acredita
nela e na sua missão libertadora.
Antes de atacar, Joana ditava cartas que eram enviadas aos ingleses
exortando-os à rendição, para que partissem
em paz. Mas o ingleses haviam feito um círculo de formidáveis
fortificações em torno de Orléans. Ademais,
lá se encontravam as melhores tropas e comandantes da Inglaterra.
Mais tarde, durante os combates, ela agia da mesma forma, gritando
ordens para os inimigos que cessassem a luta e partissem. Nem
sempre ela era ouvida.
Um primeiro ataque às trincheiras de Saint-Loup é
tentado em sua ausência. Quando avisada, a heroína
se arroja a toda brida, com a bandeira desfraldada. Era a primeira
vez que Joana d’Arc vinha combater. Eletrizando os soldados,
entrando na batalha, ela logo se fez chefe, pois era melhor do
que os outros. Não que ela fosse mais versada em coisas
de guerra, pelo contrário, mas tinha o coração
mais abnegado. Quando cada um pensava em si, ela pensava em todos.
Quando cada um tratava de se resguardar, ela a tudo se expunha.
Assim, ela toma lugar à frente dos soldados, permanecendo
em pé sob uma chuva de projéteis arremessados pelos
arcos e bestas para manter unidos os combatentes. Com esse vigoroso
ataque, conseguiu romper as linhas inglesas.
Cada assalto era uma vitória. João Dunois louvava
a maneira que Joana dispunha estrategicamente as tropas. E, conforme
está registrado em seu depoimento no processo de reabilitação,
dizia ele: "antes dela duzentos ingleses punham em fuga mil
franceses; mas com ela, algumas centenas de franceses forçam
um exército inteiro a recuar". Em Maio, o exército
dos franceses tomou a fortaleza inglesa do mosteiro dos agostinianos.
Os sobreviventes ingleses fugiram para Tourelles, à margem
do rio Loire.
Joana devolveu o entusiasmo e a esperança aos soldados
franceses. Os ingleses a temiam, mas não hesitavam em bradar
impropérios caluniosos, sobretudo acusavam-na de prostituta.
Que grande calúnia! A Pucelle nunca admitira que os soldados
franceses andassem com prostitutas nos acampamentos, prática
muito comum na época. Mesmo assim, ela não odiava
seus inimigos e, quando eram capturados, não permitia que
fossem maltratados.
A tomada de Tourelles foi iniciada em 07 de Maio e, pela primeira
vez, Joana foi ferida. Uma flecha atingiu-lhe o ombro. Muito assustada,
chorando, a Virgem de Lorena foi consolada pelos anjos sublimes
de suas visões, acalmando-se então, enquanto a hemorragia
era misteriosamente estancada. Os ingleses resistiram bravamente,
mas a dupla fortificação acabou pegando fogo, e
muitos deles caíram no rio e se afogaram.
Após a queda de Tourelles, os ingleses das fortalezas
localizadas a oeste da cidade desistiram de lutar quando receberam
o aviso da Donzela de Orléans e fugiram para Meung. A vitória
foi completa e a população comemorou com festas
e celebrações religiosas de agradecimento.
Em 12 de Junho, a cidade de Jargeau foi reocupada pelos franceses
sob o comando da Pucelle. Depois foi a vez de Meung e Beaugency.
No dia 18 do mesmo mês, numa localidade chamada Patay, travou-se
uma batalha em que os ingleses foram batidos em campo raso, esmagadoramente
derrotados (as fontes históricas registram 3 baixas francesas
contra 2000 inglesas) e o general inglês João Talbot
caiu prisioneiro. Os ingleses passaram a temer ainda mais a Donzela
de Orléans, pois acreditavam ser ela uma feiticeira e discípula
do demônio. Já os franceses a tinham como grande
heroína emissária dos céus, consagrando à
Pucelle um culto cada dia mais elevado.
A Coroação de Carlos VII
Os conselheiros da coorte viviam inquietos, receosos de perderem
seu prestígio devido ao bom êxito das obras de Joana.
O influenciável delfim Carlos VII permanecia indeciso quanto
ao próximo passo a tomar, nem sequer foi visitar os orleaneses.
Por fim, decidiu ouvir a Pucelle e pôr-se a caminho de Reims,
obtendo pacificamente a submissão das cidades que ficavam
no caminho.
Os reis da França eram tradicionalmente coroados na cidade
de Reims, através de um ritual de sagração
em que o monarca era untado com um óleo, dito sagrado,
que teria sido trazido diretamente do céu por uma pomba
e que jamais se esgotava, renovando-se miraculosamente. Era lá
que se cumpriria a segunda profecia da Donzela.
Em Gien, Joana e o duque d’Alençon reuniram uma
grande multidão incluindo cavaleiros, escudeiros, soldados
e gente comum, perfazendo um total de doze mil pessoas. A 29 de
Junho partiu a expedição rumo a Reims.
No início de Julho eles chegaram a Auxerre, cidade com
a qual estabeleceram um tratado que estabelecia a neutralidade
desta; depois alcançaram Saint-Florentin, que se rendeu
sem dificuldades. No dia 5 chegaram em Troyes, que fechou as portas,
onde o conselho da cidade hesitou entre conservar fidelidade aos
ingleses e borgonheses ou aderir ao delfim. Joana pediu ao delfim
que aguardasse alguns dias, pois Troyes iria se render.
Diante do impasse, os franceses preparavam-se para atacar a cidade.
O exército inteiro aguardava o sinal da Pucelle, que permanecia
de pé junto ao fosso, com o estandarte na mão, quando
os sitiados apavorados pediram negociação. No dia
10 a guarnição anglo-borgonhesa se retirava da cidade,
mas levava alguns franceses como prisioneiros. Esses pobres coitados,
ao passarem por Joana, imploraram a ela que interviesse. A heroína
se opôs energicamente a que fossem levados e o delfim teve
que resgatá-los a dinheiro.
De Troyes eles seguiram para Châlons, que abriu suas portas.
Ali, Joana teve a felicidade de encontrar alguns amigos, habitantes
de Domrémy. Entre eles, o lavrados Gérardin, de
cujo filho Nicolau ela era madrinha. Aos amigos Joana dizia o
quanto lhe seria prazeroso voltar ao seio da família e
às ocupações campestres, mas sua missão
a retinha perto do rei por vontade do Alto.
Enfim, no dia 16 de Julho, chegaram finalmente a Reims, logo
após a partida da guarnição borgonhesa da
cidade, onde o delfim e sua delegação foram recepcionados
nas ruas pelo povo esperançoso de dias melhores. Lá
também estavam, com alguns parentes, os pais de Joana d’Arc,
para realizar o tão almejado sonho do reencontro com sua
amada menina.
A cerimônia de coroação foi realizada no
dia 17 de Julho pelo arcebispo de Reims, Reinaldo de Chartres.
O ritual durou das 9 às 14 horas entre o juramento, a unção
e a entrega de insígnias. Joana, que certamente estava
exultante, pois via parte de sua missão cumprida, assistiu
à cerimônia segurando o seu estandarte e, no final,
ajoelhou-se diante do rei, abraçando-lhe as pernas, chorando.
A coroação de Carlos VII foi uma grande vitória
francesa porque transformou um príncipe, com discutidas
pretensões à realeza, em soberano aceito por grande
parte da população do reino, até mesmo por
gente que vivia em território ocupado pelos borgonheses
ou ingleses.
A Traição
"- A Paris!", clamava Joana no dia posterior ao da
sagração.
"- A Paris!", repetia o exército inteiro.
Mas predominam a ingratidão, a maldade, as intrigas dos
cortesãos e dos eclesiásticos e até a má
vontade do rei. Todos aqueles cortesãos pérfidos
sentiram-se eclipsados perante o brilho da Pucelle; aqueles ministros
da Igreja sentiam sua autoridade menosprezada por uma enviada
do céu; até diversos chefes militares sentiam-se
superados por ela na ciência da guerra, todos esses homens,
feridos em orgulho e vaidade, juraram vingança.
Se Carlos VII houvesse atendido ao apelo de Joana e marchado
logo sobre a capital, Paris e toda a área até o
Loire teriam sido facilmente conquistadas. Os ingleses estavam
aterrados com as derrotas sofridas. Seu principal exército
estava destroçado e os seus melhores capitães caíram
prisioneiros ou morreram. Seus soldados desertavam com medo da
Pucelle, a quem chamavam "a feiticeira da França".
Mas a indecisão do rei francês deu ao duque de Bedford
tempo suficiente para convocar as tropas inglesas, que a princípio
deveriam lutar contra os Hussitas, para reforçar as defesas
de Paris.
Finalmente, em 08 de Setembro o assalto é iniciado. Mas
as ordens de Joana não foram cumpridas. Deram-lhe por ajudantes
os dois comandantes que mais a hostilizavam: Raul de Gaucourt
e Marechal de Retz. Deixam de entupir os fossos e de sustentar
o ataque. O rei não quis mostrar-se às tropas. Prometera
ir e faltou à palavra. Joana, como sempre, portou-se heroicamente,
permanecendo junto ao fosso, incitando os soldados ao assalto,
sob uma saraivada de projéteis. Uma flecha feriu-lhe profundamente
na coxa, mas ainda assim não parou de exortar os franceses
à luta. Ela só abandonou o lugar forçada
pelo duque d’Alençon e por Raul de Gaucourt.
As forças francesas foram obrigadas a retornar para Saint-Denis.
O ataque a Paris foi o primeiro fracasso de uma carreira marcada
por grandes vitórias, graças à traição
justamente daqueles que mais deviam à Pucelle. No dia seguinte,
Joana quis recomeçar o ataque, porém, o que aconteceu?
Não puderam mais passar. O rei havia mandado destruir as
pontes que davam acesso à capital e impusera retirada.
No fim do mesmo mês, o rei chegou a Gien, no Vale do Loire,
e o exército foi desmobilizado.
A má vontade dos homens e a ingratidão do rei e
de seus conselheiros criaram mil obstáculos à heroína
e ocasionaram o malogro de seu empreendimento. Após o desastre
diante dos muros de Paris, Joana experimentou as alternativas
das vitórias e dos reveses. Com uma pequena tropa, ela
venceu em Saint-Pierre-le-Moûtier e foi derrotada em Charité.
À borda dos fossos de Melun, suas vozes lhe alertaram,
pela primeira vez, que seria capturada pelo inimigo em breve e
deveria a tudo suportar em nome de Deus. Certa ocasião,
o duque d’Alençon ouviu-a dizer ao rei que não
viveria muito mais do que um ano.
É a partir desse momento que Joana d’Arc tornar-se-á
verdadeiramente grande, maior do que pelo efeito de suas vitórias.
Sua atitude, seus sofrimentos, suas palavras inspiradas, suas
lágrimas, sua dolorosa agonia farão dela alvo de
admiração por todos os séculos vindouros.
A adversidade lhe adornará a fronte com uma auréola
sagrada!
A coorte se instalara em Bougues, onde Joana também se
hospedou. Mas a inação pesara-lhe e, no dia 23 de
Maio de 1430, ela deixou o rei aos prazeres e festas em que se
comprazia e partiu à frente de uma pequena tropa que lhe
era dedicada rumo a Compiègne, cercada por tropas inglesas
e borgonhesas comandadas respectivamente por João Montgomery
e João de Luxemburgo. Há registros históricos
de que, passando por Lagny, suas orações fizeram
reviver uma criança que já era considerada morta.
Em uma emboscada, durante uma das sortidas que ela constantemente
fazia, o governador da cidade, Guilherme de Flavy, mandou arriar
o rastilho e a heroína, não tendo podido mais entrar
na praça, foi capturada. Mesmo a poucos metros da entrada,
nenhuma tentativa de socorro se fez e a Donzela foi abandonada
à sua sorte.
O Cativeiro
Já no dia 26 de Maio de 1430, a Universidade de Paris,
que reconhecia Henrique VI como legítimo herdeiro do trono
francês, solicitou ao duque de Borgonha que Joana fosse
apresentada à Inquisição para ser julgada
por crime de heresia. Por trás da Universidade, movimentava-se
o bispo de Beauvais, Pedro Cauchon, que teve sua carreira prejudicada
pelos acontecimentos do ano anterior, desencadeados pela Donzela
de Orléans.
Joana foi primeiramente encarcerada no castelo de Beaulieu, a
pequena distância de Compiègne, sendo depois transferida
para o castelo de João de Luxemburgo. Durante os quatro
meses que lá permaneceu, numa tentativa de fuga para continuar
a lutar ao lado do povo de Compiègne, ela saltou de uma
torre muito alta, perdendo a consciência ao cair em um dos
fossos. Recolhida pelos soldados que a julgavam morta, recuperou-se
milagrosamente depois de alguns dias. Posteriormente, a Donzela
declarou-se arrependida deste ato praticado, principalmente por
não ter ouvido as advertências de suas vozes que
não aprovaram sua ação.
Durante seis meses, Joana andou de prisão em prisão,
até que, em 21 de Novembro, em obediência às
determinações da Universidade de Paris, foi vendida
aos inimigos cruéis ingleses por dez mil libras, tendo
como Pedro Cauchon intermediário das negociações.
Dinheiro este que, aliás, foi obtido mediante cobrança
de pesado imposto sobre os territórios da própria
França, que estavam dominados pela Inglaterra. Não
há registros de que Carlos VII tenha feito sequer uma oferta
pela libertação da Donzela.
Em uma das prisões que passou, a Donzela ficou presa em
frente à cela de uma mulher conhecida como a Louca de Paris.
Esta mulher, por resgate cármico, alternava-se entre estados
de lucidez e de loucura e estava presa por ter maltratado um inquisidor
num de seus surtos insanos. Quando em estado de lucidez, vendo
como maltratavam a Donzela, a Louca de Paris avançava contra
as grades e explodia em palavras de baixo calão. Certa
vez, os soldados abriram as grades da cela da louca e empurram
Joana para dentro, desafiando a curá-la, já que
falava com os anjos. A louca mulher enfurecida imediatamente acalmou-se
e, ajoelhada aos pés de Joana, pediu alívio para
seu sofrimento, chorando como criança. A Donzela olhou
em torno da louca e viu vultos negros que sugavam como vampiros
aquela pobre criatura. Ordenou-lhes, então, que fossem
embora, em nome do Cristo e dos Santos. Acariciou a mulher e beijou-lhe
a fronte, despedindo-se, caminhando para o dever frente aos carrascos
do poder temporal. Com efeito, malgrado dos soldados, a mulher
nunca mais sofreu os tais acessos de loucura e, estando curada,
foi colocada em liberdade após alguns dias.
Finalmente no final de 1430, Joana chega a Rouen, onde viu-se
aprisionada no castelo de Bouvreuil para responder ao processo.
A pobre menina foi encarcerada num calabouço, numa espécie
de gaiola de ferro, trancada com três chaves. Acorrentaram-na
pelo pescoço, pela cintura, pelos pés e pelas mãos
a uma pesada tora de madeira.
Que duro suplício para uma pobre donzela! Se não
fosse a consolação e o amparo sublime dos seus anjos,
teria sucumbido à tão terrível aflição.
Mesmo morrendo de fome, machucada pelos ferros, cercada de imundícia,
tirou de sua fé a coragem de perdoar aos seus algozes.
Vigiada por uma guarda composta por cinco soldados ingleses,
não foram poucas as vezes em que tentaram violentá-la.
Como nunca conseguiam, batiam-lhe, deixando seu rosto inchado
pelas pancadas. Para a própria proteção,
ela insistia em permanecer usando trajes masculinos, fato que,
aliás, foi classificado como crime.
Destarte, nas horas mais difíceis, que lhe causavam mais
temor do que a própria morte, os amigos do invisível
intervinham. Uma legião radiosa de espíritos puros
salvaguardavam-na naquela sombria prisão, dando-lhe forças
para resistir a tudo e lhe diziam: "tem coragem! Serás
libertada por uma grande vitória!" Inicialmente, ela
pensou que essa libertação seria sua soltura, mas
depois compreendeu que tratava-se da libertação
pela martírio, pela morte redentora.
Assim, a duquesa de Bedford deu ordem expressa aos soldados para
que a deixassem em paz. Ainda assim, tempos depois, um novo exame
de virgindade foi feito pela própria duquesa em companhia
de lady Ana Bavon e outras matronas, justificando porque era denominada
La Pucelle.
Em Janeiro de 1431, Joana foi formalmente entregue pelos ingleses
ao bispo de Beauvais, Pedro Cauchon, para início do processo
de julgamento.
A Inquisição
Na Inquisição, a pressuposição de
culpa do réu levava o tribunal a buscar somente os argumentos
necessários para a imposição da pena. Para
os acusados que reconheciam seus supostos erros e se arrependiam,
a pena máxima era a prisão perpétua. Todavia,
para os que se recusavam a admitir sua culpa e não se arrependiam,
sobretudo no caso de feitiçaria e heresia, estava reservada
a morte na fogueira.
Ao mesmo tempo que padecia de tão duro e horrível
cativeiro, Joana ainda teve que sofrer as longas e tortuosas fases
de um julgamento sem precedentes na história! De um lado,
60 clérigos, padres e doutores de corações
petrificados, todos partidários dos ingleses e inimigos
de Joana. De outro lado, sem advogado de defesa, uma menina de
19 anos, encarnação da pureza e da inocência,
pronta aos maiores sacrifícios para cumprir a sua missão.
Mas a Pucelle não estava sozinha. Se o rei e os nobres
da França nada fazem para resgatá-la, os seres invisíveis
estavam lá para ampará-la, velando e inspirando
réplicas que causavam espanto e desnorteavam os inquisidores
doutores da lei. Jamais se viu a natureza humana subir tão
alto de uma parte e, de outra, cair tão baixo!
Pedro Cauchon fora o convocado pela Inglaterra para assumir o
papel de inquisidor. Mas, conduzindo o julgamento, ele extrapolava
as funções inerentes às de juiz, ignorando
os fatos e o comportamento da acusada. Fatos e atos serviram de
base para o supremo objetivo da coorte: a obtenção
de uma confissão que caracterizaria os crimes então
em julgamento, os de heresia e bruxaria.
Para obter tal confissão, muitos espiões visitavam
disfarçados a cela de Joana, dizendo-se simpatizantes de
sua causa. Chegaram até a submetê-la à tortura
em 09 de Maio de 1431. Joana resistia defendendo a França
e o rei ingrato que a abandonara e, então, os torturadores
tiveram que parar porque o seu frágil corpo, debilitado
pelos maltratos, poderia não sobreviver e até o
momento só a morte pública lhes interessava.
Os assessores do bispo Cauchon foram a todos os lugares que Joana
havia passado, tentando juntar provas contra ela. Mas os relatórios,
todos favoráveis à Pucelle, foram omitidos dos registros
e algumas informações foram alteradas nas sessões
de interrogatório, que se estenderam de 21 de Fevereiro
a 17 de Março de 1431.
Os membros do tribunal, de momento a momento, cheios de raiva,
engendram mil ardis ao interrogar Joana. No entanto, ela responde
a todos com palavras tão judiciosas que ninguém
pode duvidar de que ela está inspirada pelos seus guias
do plano astral.
Quando perguntaram se os santos que apareciam-lhe estavam nus,
Joana retrucou: "Acaso achais que Deus não tem com
o que vestir?" Tentando culpá-la do crime de magia,
perguntaram se, na conquista de suas vitórias, ela defendia
o seu estandarte ou se era o estandarte que a defendia. De pronto,
a Donzela respondeu: "Fosse do estandarte ou de Joana a vitória,
tudo pertencia a Deus". Ora, quantas pessoas poderiam resistir
à tentação de atribuir a si próprios
o mérito de suas vitórias? E como eles ainda insistiam
em saber onde ela fundava suas esperanças de vitória,
se era no estandarte, ela rematou: "Em Deus e em nada mais."
Ainda ressaltamos a resposta à pergunta, feita na terceira
sessão, que os inquisidores achavam que era irrespondível:
"Acreditais estar na graça de Deus?" Situação
difícil, pois a resposta afirmativa significaria presunção
de Joana e a resposta negativa seria reconhecer estar em pecado.
Mas Joana não hesitou em responder: "Se não
estou, que Ele me faça estar; e se estou que Ele nela me
conserve!"
Destarte, visando tornar menos público o julgamento e
exercer maior pressão sobre Joana, das 15 sessões
de interrogatórios a que ela foi submetida, durando horas
cada uma, apenas as 6 primeiras contaram com a presença
maciça dos assessores convocados pelo bispo. As demais
foram feitas na cela da Pucelle, assistidas por um número
reduzido de partidários de Cauchon.
Joana negava-se a responder a muitas perguntas, pois não
reconhecia no tribunal que a julgava competência para questionar
as coisas divinas. Até mesmo o juramento que antecedia
cada sessão, obrigando-a a dizer somente a verdade, carecia
de significado, pois ela havia jurado silêncio sobre muitas
coisas acerca de suas visões.
Ela tentou remeter o tribunal às notas do inquérito
de Poitiers, mas este, por ser-lhe favorável, havia sido
destruído, restando apenas as suas conclusões obtidas
somente durante o Processo de Reabilitação de 1456.
Noutra ocasião, ponderou num tom de censura: "Registrais
só o que é contra mim e nada do que é a meu
favor!"
Um dia o bispo de Beauvais entra no cárcere acompanhado
de sete padres. Os amigos do plano espiritual dizem à Joana
que defenda a verdade e desafie a morte. Eis a seguir o trecho
determinante do diálogo vital para a prisioneira. O bispo
pergunta-lhe:
- "Queres submeter-te à Igreja?"
- "Só à Igreja lá do Alto me submeto,
com relação a tudo o que tenho feito e dito."
- "Assim, recusas submeter-te à Igreja, recusas renegar
suas visões diabólicas?"
- "Reporto-me a Deus somente. Pelo que respeita minhas visões,
não aceito o julgamento de homem algum."
Joana recusa submeter-se, pois Deus deve ser servido antes que
qualquer homem na Terra. A Pucelle não se submeteu à
Igreja militante, isto é, a Igreja composta pelo papa,
cardeais e demais membros do clero. Esta diferenciava-se da Igreja
triunfante, que era representada por Deus, pelos santos e pelas
almas que haviam alcançado a salvação.
Alguns inquisidores reconheceram em Joana um ente amparado pelo
Céu e já entreviam as conseqüências deste
crime. Mas como recuar? Só encontraram uma saída:
fazer com que a vítima desaparecesse assassinada, evitando
assim um crime público. Um peixe envenenado foi providenciado
e a Donzela comeu e adoeceu. Mas os ingleses pagaram-na caro e
a queriam na fogueira e, por isso, ministraram-lhe pérfidos
cuidados, aproveitando, todavia, seu estado de fraqueza para exigir-lhe
uma abjuração, mas Joana não cedeu.
Em 2 de Maio, ela foi apresentada à coorte para ouvir
a leitura das 70 acusações do seu processo, que
foram então condensadas para 12 acusações
a fim de serem enviadas para a Universidade de Paris. Hei-las:
1. Atribuição a Deus a origem das revelações
e aparições;
2. O uso de "sinal mágico" dado ao rei;
3. Afirmação de que os anjos e santos haviam sido
reconhecidos pelos bons conselhos que a ela foram dados;
4. Previsão de acontecimentos e uso de adivinhação
para reconhecer pessoas;
5. Insistência no uso de roupas masculinas;
6. Uso do sinal da cruz e das palavras "Jesus Maria"
nas cartas que enviava;
7. Desobediência aos pais;
8. Tentativa de suicídio;
9. Afirmação de ter a garantia do paraíso
como conseqüência do voto de castidade;
10. Afirmação de que os santos estavam contra os
ingleses e a favor dos franceses;
11. A não-procura de auxílio da Igreja, quando
deveria tê-lo feito;
12. A recusa à submissão à Igreja militante.
Estes doze artigos de acusação foram enviados pela
coorte à Universidade de Paris desacompanhados de qualquer
material adicional referente às sessões do processo,
buscando eximir-se de toda responsabilidade quanto à decisão.
A Universidade reforçou e endossou cada uma das doze acusações:
1. As revelações e aparições seguramente
provinham de espíritos do mal.
2. O sinal dado ao rei era pura mentira e nunca poderia vir de
anjos.
3. Fracas eram as razões para Joana afirmar o reconhecimento
dos santos e anjos, e se ela o fazia com a mesma segurança
com que tinha fé em Jesus Cristo, errava na fé.
4. Era supersticiosa e usava de adivinhação.
5. Blasfemava ao afirmar que o uso de roupas masculinas provinha
de ordens de Deus, ferindo Seus sacramentos.
6. O uso do sinal da cruz e das palavras "Jesus Maria"
nas cartas provava ser ela apenas uma assassina cruel que se vangloriava
da vitória que lhe havia de ser dada por Deus.
7. Pecara ao transgredir o mandamento que diz que pai e mãe
devem ser honrados.
8. O salto da torre da prisão fora inegavelmente suicida.
9. Era presunçosa ao afirmar que não estava em
pecado e que poderia alcançar o paraíso levada pelos
santos.
10. Transgredia o mandamento que diz "amai-vos uns aos outros",
ao afirmar que os santos eram favoráveis aos franceses
e contrários aos ingleses.
11. Era idólatra e invocadora de demônios ao reverenciar
seus santos sem o auxílio de um clérigo.
12. Era cismática, pois rejeitava a unidade e a autoridade
da Igreja, recusando-se a submeter suas palavras e suas obras
ao julgamento das autoridades. Dizendo que seria julgada somente
por Deus, errava perigosamente na fé.
Finalmente, em 19 de Maio, o bispo Cauchon reuniu seus assessores
para leitura das conclusões que faziam prever o trágico
destino da Pucelle. Como ela mantinha-se irredutível, o
julgamento foi dado por encerrado.
O Martírio
No dia 24 de Maio de 1431, Joana d’Arc foi levada para
o cemitério de Saint-Ouen, onde o povo e os soldados ingleses
aguardavam ansiosos pelo suplício. Os juizes reunidos,
com destaque para o cardeal Beaufort e mais 6 bispos, João
Massieu (oficial de justiça da coorte e escrivão
do processo) e Guilherme Erard (mestre na Universidade de Paris),
este último designado para fazer o sermão.
Erard principiou o sermão exortando Joana a permanecer
na verdadeira vinha da Santa Madre Igreja. Quando criticou Carlos
VII por se deixar iludir por uma mulher herética, teve
que ouvir da Donzela uma bela réplica em defesa do rei:
ela afirmou, sob pena de perder a vida, que ninguém tinha
mais amor pela fé e pela Igreja do que o rei.
Hipócritas, eles pedem que Joana se compadeça de
si mesma e não se condene ao suplício do fogo, convencendo-a
de que deveria se salvar. Aquela alma tão pura e meiga
deixou-se levar pelas refalsadas aparências de simpatia,
pelas fementidas demonstrações de benevolência.
Alguns, já haviam dito a ela anteriormente que na Igreja
militante haviam muitos prelados e doutores partidários
do rei Carlos VII e iriam ajudá-la. Logo em frente ao palanque,
a fogueira já a esperava. Alguns historiadores dizem até
que um carrasco chegou a pôr a mão da Pucelle no
fogo para que ela sentisse a dor e se intimidasse.
Aturdida, confusa e sem mais forças para resistir, a Pucelle
concorda em submeter-se e assina, com uma cruz, o papel que lhe
trazem, sem fazer juramento. Mas lembremos que Joana não
sabia ler nem escrever! Quando o escrivão Massieu leu para
ela a fórmula de abjuração, ela não
compreendeu realmente o significado do que estava fazendo.
Além disso, nenhuma das testemunhas que depuseram no Processo
de Reabilitação, em 1456, atestaram a autenticidade
da fórmula que se encontra apensa ao Processo de Condenação.
Nesta ocasião, o próprio João de Massieu
afirmou, positivamente, que tal documento não é
o mesmo que Joana assinou. O original, segundo ele mesmo, não
possuía mais que sete linhas, sendo a que se encontra nos
autos extremamente longa.
Após ouvir a sentença de prisão perpétua,
Joana cobrou as promessas que lhe haviam feito: que seria levada
para uma prisão da Igreja e não seria mais acorrentada,
que poderia assistir à missa e que teria por guarda uma
mulher. Mas Cauchon não quis atendê-la e mandou-a
de volta à mesma cela, onde recebeu roupas femininas, que
imediatamente vestiu.
Na mesma noite, as vozes se fizeram ouvir e a Donzela compreendeu
que não agira corretamente, pois deveria defender a verdade,
mesmo que isso lhe custasse a própria vida. E os três
dias seguintes foram um pesadelo interminável, pois Joana
viu-se humilhada e atacada pelos soldados, que lhe bateram muito
por não conseguirem o que queriam. Para defender o seu
pudor e para demonstrar que não mudara, ela voltou a usar
suas vestes.
No dia 28 Pedro Cauchon, Le Maître e mais 8 assessores
foram vê-la para constatar que voltara a usar vestes masculinas.
Joana disse-lhes:
"- A voz me disse que abjurar é uma traição.
A verdade é que Deus me enviou. O que fiz está bem
feito. Prefiro morrer a suportar por mais tempo o martírio
do cárcere".
Os soldados ingleses exultaram quando, no dia seguinte, o bispo
de Beauvais anunciou que a Pucelle tornara-se relapsa e seria
entregue à justiça secular.
Enfim, em 30 de Maio de 1431, às 8 horas da manhã,
os sinos de Rouen dobram anunciando à Pucelle sua última
hora soara. Quatro plataformas foram erguidos no Mercado Velho,
sendo a mais alta reservada para Joana e as demais seriam ocupadas
pelos juizes, onde o sermão seria pregado por Nicolau Midi.
Ela foi conduzida ao local da execução sob a vigilância
de aproximadamente cem soldados ingleses e, em lágrimas,
dizia a João Massieu: "é preciso até
que meu corpo, intacto e puro, seja hoje consumido e reduzido
a cinzas! Ah! Preferia que me decapitassem sete vezes!"
As suas vozes já lhe tinham revelado que deveria perecer
na fogueira para completar sua missão e eternizar seu nobre
e puro vulto na história, mas impressionava-a cruciantemente
a idéia do suplício no fogo. Depois de atrozes maltratos,
o ignominioso fim. Entretanto, Joana d’Arc nunca perdera
sua fé vigorosa e sua confiança em Deus e assim
transporia todos os obstáculos.
Nicolau Midi proferiu, ao lado da Donzela, a sentença
que a considerava herética e a entregava à justiça
secular. Os juizes e capitães ingleses esperavam que a
Virgem de Lorena, vencida pela dor, gritasse implorando e renegando
sua missão e suas vozes.
Todavia, no momento solene, em presença da morte que se
avizinha, a alma de Joana se desprende das sombras terrenas e
entrevê os esplendores eternos. Ela se ajoelha e profere
uma prece extensa e fervorosa, em voz alta. Recomenda sua alma
a Deus, à Virgem Maria e aos Santos. Pede que seus acusadores
e os que a abandonaram fossem perdoados e declara-se responsável
por todos os seus atos. A multidão estava comovida e muitos
juizes não continham as lágrimas.
A Pucelle então pediu que lhe fosse permitido olhar para
cruz cerimonial da igreja mais próxima, a do Santo Salvador,
que foi-lhe trazida e erguida por Isambart de la Pierre bem defronte
de seus olhos, enquanto amarravam-na à estaca de madeira
e até o último instante. Ela queira ter diante de
si a imagem desse outro supliciado que, lá nos confins
do Oriente, no cume de um monte, deu a vida em holocausto à
verdade: Jesus Cristo.
Os carrascos então põem fogo à lenha e turbilhões
de fumaça se enovelam no ar. A chama cresce, corre, serpeia
por entre as pilhas de madeira. O bispo de Beauvais acerca-se
da fogueira e grita-lhe: "- Abjura!" Ao que Joana, já
envolvida num círculo de fogo, responde: "- Bispo,
morro por vossa causa, apelo do vosso julgamento para Deus!"
Mais uma vez, a emissária de Deus, mesmo no momento crucial,
perdoa o seu principal algoz.
As labaredas rubras, ardentes, sobem, sobem mais e lambem-lhe
o corpo virginal; suas roupas fumegam. Hei-la, torcendo-se nas
ataduras de ferro. Alguns minutos depois, em voz estridente, lança
à multidão silenciosa e aterrorizada, estas retumbantes
palavras: "- Sim! Minhas vozes vinham do Alto! Minhas revelações
eram de Deus! Tudo o que fiz, foi por ordem de Deus!"
Suas vestes incendiadas se tornam uma das centelhas da imensa
pira. Ecoa um grito sufocado, apelo supremo da mártir de
Rouen ao mártir do Gólgota: "Jesus!" Olhando
para cruz erguida à sua frente, Joana d’Arc expirou
clamando pelo Mestre e, em espírito, ascendeu às
regiões celestiais amparada por uma plêiade de amigos
superiores do plano astral. Legiões de espíritos
radiosos, formando um coro celestial, entoam um hino de triunfo,
que repercutem nos espaços siderais: "Salve! Salve!
Aquela que o martírio coroou! Salve aquela que, pelo sacrifício,
conquistou eterna glória!"
Alguns historiadores dizem que suas cinzas foram lançadas
ao Rio Sena logo após a execução. Outros,
dizem que os ingleses apagaram o fogo logo que a virgem expirou,
deixando seu corpo carbonizado exposto durante 8 dias à
vista do povo, para só então reacender a fogueira
e jogar no rio suas cinzas. Nesta ocasião, os soldados
teriam encontrado seu coração completamente intacto,
sem queimaduras, segundo opúsculo ditado pelo Espírito
Miramez. Isso, graças à intervenção
da Louca de Paris (já em espírito, pois desencarnara
algum tempo antes, atropelada por uma carruagem), que protegera
o coração de sua benfeitora e, com efeito, foi também
recolhida das chamas para o regaço de Amor ao lado de um
cortejo de estrelas celestiais.
De qualquer modo, não permitiram que os restos do corpo
virginal, que abrigou um anjo, pudesse repousar num túmulo,
onde os que amaram a Donzela pudessem ir chorar e depositar flores.
O pai de Joana, Jacques d’Arc, ferido no coração
pela notícia do martírio da filha, morreu subitamente,
acompanhado de perto pelo seu filho mais velho. A mãe então
passou a ter como único objetivo na vida instar a revisão
do processo. Em vão, durante anos, redigiu petições
ao rei e ao papa.
Em 1435, do duque de Borgonha, Filipe, o Ousado, reconheceu Carlos
VII como rei da França e, com a perda do aliado, a Inglaterra
viu-se sem condições de continuar controlando Paris
e retirou sua guarnição da cidade em 1436. Já
em 1449 os franceses penetraram num dos últimos redutos
ingleses em território francês e, logo que atingiram
Rouen, cedendo à pressão popular, o rei mandou reunir
a documentação do processo de condenação
de Joana d’Arc.
Após a constituição, em 1452, de 21 artigos
de crítica ao processo de condenação da Virgem
de Lorena, produzidos pelo cardeal Guilherme d’Estouteville
e seus juristas, a própria família enviou uma petição
ao papa Calixto III, solicitando a sua reabilitação.
Alguns destes artigos merecem ser conhecidos:
Ï% Cauchon odiava Joana porque ela lutara contra os ingleses
e procurara levá-la à morte por todos os meios possíveis.
Ï% Ele pedira que ela fosse entregue, primeiro, ao rei da
Inglaterra e somente depois à Igreja, e que pagaria qualquer
preço por ela.
Ï% Os ingleses temiam Joana e queriam a sua morte.
Ï% Ela era simples, honesta e uma boa cristã.
Ï% O interrogatório fora "difícil e insidioso",
e Joana não o compreendera.
Ï% Joana não teve acessos a meios para defender-se.
Ï% Ela morrera encomendando sua alma a Deus e invocando
Jesus, de tal forma que provocou lágrimas em todos os presentes.
Quando finalmente o inquérito teve abertura, foram ouvidas
mais de 100 pessoas nas principais cidade em que a Pucelle esteve.
O veredicto final, pronunciado pelo arcebispo de Reims, João
Jouvenel de Ursins, foi conhecido a 7 de Julho de 1456 e declarava
Joana d’Arc totalmente limpa do julgamento de 1431, que
estava repleto de fraudes, calúnias, iniqüidade, contradições
e erros.
Já no século XIX, em 1869, na fase nacionalista
que se seguiu à Revolução Francesa, o bispo
de Orléans, Félix Dupanloup, deu início às
gestões para obter a canonização da Donzela.
Na década de 90, Leão XIII abriu uma investigação
nesse sentido. Em 1909, Joana d’Arc foi beatificada e em
1920 canonizada.
A Redenção
Teria Joana sofrido muito? Ela própria, em mensagem mediúnica,
que consta na sua biografia por Léon Denis, nos assegura
que não, na página 154: "Poderosos fluidos
choviam sobre mim! Por outro lado, minha vontade era tão
forte que dominava a dor."
Aliás, toda obra de salvação se realiza
por meio do sacrifício, tendo como remate o martírio.
Assim foi com Joana d’Arc, assim foi com Jesus Cristo. É
para a personalidade dos mártires que se dirigem os pensamentos
daqueles que sofrem, suportando grandes provações.
São focos de energia e beleza moral ao calor através
dos quais se aquecem as almas enregeladas pelo frio das adversidades.
Eis porque a vida de Joana projeta, através dos séculos,
uma verdadeira cauda luminosa, esteira de luz que nos atrai para
as regiões celestiais. Sua vida é realmente como
um singelo reflexo da do Cristo. Como Ele, sofreu a injustiça
e a crueldade dos homens. É evidente que Jesus é
infinitamente maior, mas a vida da Virgem de Lorena tem um especial
toque poético: ela era mulher, e como tal era sensível
e terna. Guerreira, teve o dom de pacificar e unir. Até
os ingleses, que a imolaram, hoje são os seus mais ardorosos
partidários.
Por isso, a partir de agora, tocaremos, à guisa de hipótese,
em um assunto extremamente delicado, apoiados na obra de José
Fuzeira: "Judas Iscariotes e sua reencarnação
como Joana d’Arc". Reencarnando como Joana, Judas realmente
estaria se redimindo de suas faltas e se redimindo perante a si
e a Deus.
A princípio, tal idéia é realmente chocante,
pois é-nos difícil comparar uma vida tão
espetacular e cheia de personalidade como a da Pucelle com a imagem
que todo mundo de Judas, conhecido como o traidor. Mas estaremos
satisfeitos se, pelo menos, conseguirmos desfazer tal injustiça.
Afinal, o próprio Jesus nos ensinou: "Aquele que
não tiver pecado que atire a primeira pedra". Destarte,
quem somos nós para criticar ou condenar a atitude de Judas?
Judas realmente cometeu traição, mas amava o seu
Mestre e não esperava que os acontecimentos terminassem
tão catastroficamente. Extremamente arrependido, ele não
viu outra saída senão enforcar-se.
Ademais, saber como encarnou antes o espírito de Allan
Kardec, Francisco de Assis ou qualquer outro grande nome da história,
acaso diminui suas obras? O mesmo acontece com a Donzela de Orléans.
Suas vidas pregressas, quaisquer que tenham sido, não tornam
suas obras menores e nem a tornam menos bela e vitoriosa! Portanto,
apresentamos tal hipótese à guisa de complementação
interessante e exemplificação perfeita da lei de
Causa e Efeito, ou Ação e Reação.
Todo espírita sabe que sofremos os males que causamos
a outrem, Mesmo porque, a alma pecadora, cedo ou tarde, será
afogueada pelo remorso, somente conseguindo ter paz quando resgatar
sua falta. Não se trata de punição, mas de
reeducação.
Por isso, quando Jesus, pregado na cruz no cimo do Calvário,
pediu ao pai: "perdoai-lhes, Senhor, pois não sabem
o que fazem", não excluiu Judas. Todavia, mesmo tendo
sido perdoado, é necessário que cada um colha o
que plantou. A cada um conforme suas obras.
Após sua morte, Judas encontrou-se no plano espiritual
extremamente aflito, abrasado pelo moral do remorso, assim permanecendo
por longo tempo. Mas Deus não se esquece de nenhuma criatura
e, quando ele já estava pronto, os espíritos evoluídos
socorreram-no. Ele ainda teve diversas outras encarnações
antes de se tornar Joana d’Arc, pois precisava de tempo
para se preparar para as expiações redentoras e,
afinal, são quase quinze séculos de diferença.
A ação de Joana no passado foi o início
de uma renovação nacional, sob os preceitos de Jesus,
que fora o início da renovação espiritual
humana. Destaquemos, evidentemente sem o intuito de igualar, algumas
das principais semelhanças entre a vida de Jesus Cristo
e de Joana d’Arc:
Ambos nasceram em lares humildes. Jesus era filho de um simples
carpinteiro e Joana era filha de um camponês.
Jesus, para cumprir a missão que Deus lhe confiara, teve
que libertar-se do imenso afeto de sua dedicada mãe para
partir em peregrinação. Joana também abandonou
seu lar, o convívio e o afeto de seus queridos pais. Ambos
não puderam dar-lhes satisfações.
Jesus, ainda criança, discutia e confundia os doutores
da lei. Joana, apesar de jovem e analfabeta, mas inspirada pelo
Alto, discutiu com os doutores da Igreja romana e também
os confundiu com respostas surpreendentes.
Jesus foi perseguido em nome de Jeová. Joana foi perseguida
pelos que diziam falar em nome de Deus.
Ambos foram vendidos pelos seus. Jesus previu sua paixão
e morte, avisando seus discípulos que seria traído.
Na igreja de Compiègne, Joana desabafa aos que lhe eram
fiéis: "Bons amigos e queridos filhos, sabei que me
traíram e me venderam. Dentro em breve, serei condenada
à morte. Orai por mim!"
Jesus foi julgado e condenado pelo Sinédrio, o tribunal
sagrado, presidido por Caifás e sem ter nenhum defensor.
Joana foi julgada pelo tribunal eclesiástico, presidido
pelo bispo de Beauvais, Pedro Cauchon, também sem direito
à defesa.
Jesus foi flagelado no Pretório de Pôncio Pilatos.
Joana foi flagelada com barbaridade e até tentaram violentá-la,
atentando contra seu pudor e castidade.
Jesus baixou à Terra para salvar a Humanidade. Joana baixou
à Terra para salvar a França. Abnegados, ambos foram
sacrificados por uma causa de ordem coletiva.
Ambos, no momento crucial do martírio, antes de expirar,
pediram perdão a Deus pelos seus algozes e supostos inimigos,
que de tudo fizeram para sacrificá-los.
Jesus foi abandonado pelos seus compatriotas hebreus e também
por alguns dos seus discípulos, além de traído
por um apóstolo. Joana foi abandonada pelos próprios
franceses e atraiçoada por alguns dos generais que batalharam
com ela, sobretudo pelo rei que ela colocara ao trono.
Poderia haver, portanto, maneira melhor para que Judas Iscariotes
resgatasse suas dívidas perante a justiça divina
e a sua própria consciência, do que reencarnando
como Joana d’Arc? Ora, a equivalência dos contrastes
morais existentes entre a vida de Judas e a de Joana nos incita
a crer que estas duas personalidades são, de fato, a mesma
entidade espiritual, a mesma alma em duas encarnações
diferentes. Primeiro o crime, depois a expiação
e, por fim, a redenção.
Desta forma, o traidor dos tempos idos já é um
espírito evoluído, acrisolado pela dor, tendo padecido
quase todos os martírios infligidos a Jesus, pois escolheu
provas idênticas a fim de alcançar sua redenção.
Por fim, transcreveremos os principais trechos da mensagem do
espírito Humberto de Campos, o Irmão X, recebida
pelo médium Chico Xavier em 19 de Abril de 1935, descrevendo
seu encontro e diálogo com Judas:
"(...) Os espíritos podem vibrar em contacto direto
com a história e buscando uma relação íntima
com o passado vivo dos Lugares Santos. (...) Os espíritos
apreciam, às vezes, não obstante o progresso que
já alcançaram, volver atrás, visitando os
sítios onde se engrandeceram ou prevaricaram. (...) Judas
costuma vir à Terra, nos dias em que se comemora a Paixão
de Nosso Senhor, meditando nos seus atos de antanho. (...)
Nas margens caladas do Jordão, não longe talvez
do lugar sagrado, onde o Precursor (João Batista) batizou
Jesus Cristo, divisei um homem sentado sobre uma pedra. (...)
- Sim! Sou Judas! - respondeu aquele homem triste, enxugando
uma lágrima nas dobras de sua longa túnica. - Como
o Jeremias das Lamentações, contemplo, às
vezes, esta Jerusalém arruinada, meditando nos juízos
dos homens transitórios. (...) Ora, eu era um dos apaixonados
pelas idéias do Mestre, porém, o meu excessivo zelo
pela doutrina fez-me sacrificar o seu fundador. Acima do meu coração
eu via a política como única arma com a qual poderia
triunfar; e que Jesus não obteria nenhuma vitória
com o seu desprendimento pelas riquezas. (...) Planejei então
uma revolta surda como se projeta hoje, na Terra, visando a queda
de um chefe de Estado. (...) Entregando, pois, o Mestre a Caifás,
não julguei que as cousas atingissem um fim tão
lamentável; e ralado de remorsos, presumi que o suicídio
era a única maneira de me redimir aos seus olhos.
- E chegou a salvar-se pelo arrependimento?
- Não! Não consegui. O remorso é uma força
preliminar para os trabalhos reparadores. Depois de minha morte
trágica submergi-me em séculos de sofrimento expiatório
da minha falta. Sofri horrores nas perseguições
infligidas em Roma aos adeptos da doutrina de Jesus; e as minhas
provas culminaram na fogueira inquisitorial, onde, imitando o
Mestre, fui traído, vendido e usurpado. (...) Desde esse
dia, em que me entreguei, por amor ao Cristo, a todos os tormentos
e infâmias que me aviltavam, com resignação
e piedade pelos meus verdugos, fechei o ciclo das minhas dolorosas
reencarnações na Terra, sentindo na fronte o ósculo
de perdão da minha própria consciência. (...)
Pessoalmente, já estou saciado de justiça porque
já fui absolvido pela minha consciência no tribunal
dos suplícios redentores. Quanto ao Divino Mestre, infinita
é a sua misericórdia e não só para
mim, porque se recebi trinta moedas, vendendo-o aos seus algozes,
há muitos séculos Ele está sendo criminosamente
vendido no mundo, a grosso e a retalho, por todos os preços,
em todos os padrões de ouro amoedado.
- É verdade! - concluí - e os novos negociadores
do Cristo não se enforcam depois de vendê-lo.
Judas afastou-se tomando a direção do Santo Sepulcro
e eu, confundido nas sombras invisíveis para o mundo, vi
que no céu brilhavam algumas estrelas sobre as nuvens pardacentas
e tristes, enquanto o Jordão rolava na sua quietude como
um lençol de águas mortas procurando um mar morto."
Humberto de Campos
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